sexta-feira, 21 de maio de 2010

Religiosidade institucionalizada

O Evangelho de Deus em nossas vidas demanda não algumas pequenas reformas ou ajustes, mas uma grande e tremenda revolução


Muitos autores e conferencistas têm apontado para o perigo da institucionalização que ronda desde nossas comunidades locais até denominações inteiras. O problema é real e sua influência tem multiplicado o número de comunidades cristãs frias e apáticas, que vivem em torno de rituais vazios, normas de procedimento e da mera manutenção de suas tradições. Em tais igrejas, não existe qualquer sinal da vitalidade gerada pelo anúncio e compreensão do Evangelho transformador de Jesus, muito menos entusiasmo pelo engajamento na missão por ele dada a sua igreja. Este perigo, no entanto, não deve ser visto como uma espécie de energia negativa, impessoal, ou uma epidemia que se propaga nos cantos escuros da igreja, contaminando silenciosamente suas estruturas e levando-a à morte.

O perigo da institucionalização alcança e afeta as estruturas de uma comunidade local ou de uma denominação, através de homens e mulheres que, sem discernimento e cuidado para com o desenvolvimento de uma espiritualidade sadia e consistente a partir da obra de Jesus e seus ensinamentos, passam a desenvolver uma religiosidade institucionalizada.

Nos tempos de Jesus, os maiores representantes deste tipo religiosidade eram os fariseus. Por diversas vezes, Jesus teve que confrontá-los por causa do seu apego compulsivo às tradições, da preocupação excessiva com o exterior, do zelo e dedicação para com as estruturas e do orgulho e confiança que depositavam na performance religiosa. Eles viam a si mesmos como responsáveis e juízes de tudo e de todos. Hoje, como ontem, a religiosidade institucionalizada continua sendo um inimigo íntimo a espreitar a vida dos crentes. É ela que acaba com a vitalidade do Evangelho de Jesus mesmo naqueles que começaram muito bem a jornada cristã. Da mesma forma, move igrejas do engajamento na missão deixada pelo Filho de Deus em direção à mera manutenção das estruturas.

A religiosidade institucionalizada leva ao apego compulsivo às tradições, em detrimento do engajamento na missão e no serviço às pessoas. Um exemplo típico nas Escrituras é o episódio em que Jesus cura um enfermo e os fariseus protestam porque o milagre aconteceu num sábado. É que demonstravam preocupação excessiva com a aparência exterior em detrimento da construção consistente de um caráter interior – não é à toa que oravam em praças públicas a fim de ser vistos pelas pessoas, mas foram chamados por Jesus de “sepulcros caiados”.

O orgulho em relação à performance religiosa em detrimento da confiança única e exclusiva na maravilhosa graça e amor de Deus é outro indício do problema. Existe um grande desconforto para com o conceito da graça, como o demonstrado pela reação do filho mais velho na parábola de Lucas 15. Mas bem mais importante do que identificar o problema ou diagnosticar a enfermidade é conhecer os meios para prevenir-se e a própria cura para o mesma. A consciência de que este é um perigo que ronda nossas vidas mais do que possamos imaginar ou desejar é o primeiro passo para evitá-lo. Mas esta consciência deve nos conduzir a um processo de constante cuidado para com as bases sobre as quais estamos construindo nossa espiritualdade.

Algumas perguntas podem contribuir grandemente para nossa própria avaliação e crescimento. A primeira delas é: temos crescido na compreensão da graça e do amor de Deus para conosco? Ou somos mais conscientes desta graça hoje do que há um ano atrás? Estamos mais certos agora acerca do amor de Deus do que antes? Isso tem nos levado a uma relação de mais devoção e intimidade com o Senhor? E em qual medida isso tudo tem impactado e transformado nossas vidas? As pessoas que nos cercam percebem nossa fé através de nossas palavras e atitudes? Temos nos tornado mais parecidos com Jesus ou não?

Mas o que fazer quando identificamos que o mal da religiosidade institucionalizada não é uma ameaça, mas já é uma enfermidade presente em nós? Neste caso, precisamos redescobrir o Evangelho de Deus que nos é oferecido em Jesus. Na medida em que trazemos às nossas mentes a consciência do que foi feito por nós e aos nossos corações, a convicção surpreendente do grande amor de Deus por nós, as amarras da institucionalização da fé passam a se romper e somos libertados.

Quanto o Evangelho de Deus entra em contato com nossas estruturas desfuncionais e deformadas, elas são rompidas. O Evangelho de Deus em nossas vidas demanda não algumas pequenas reformas ou ajustes, mas uma grande e tremenda revolução. Por isso, este Evangelho nos liberta da religiosidade institucionalizada, colocando novamente nossa confiança na graça e no amor do Senhor e nos convidando ao engajamento na missão.

Fonte: Cristianismo Hoje

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