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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Merece uma boa reflexão!

Quem não gosta de samba, bom cristão não é

No último dia 14 de maio, tive a reunião mais inesperada para um editor de livros cristãos. No fim da tarde, tomei um táxi no bairro carioca de Bonsucesso com direção à Cidade do Samba. Para quem não sabe, esse espaço é um complexo de galpões perto do centro do Rio que abriga os ateliês das escolas de samba do grupo especial, como Portela, Salgueiro, Mocidade Independente… Ou seja, as melhores do Brasil e do mundo.

Chegando lá, como bom paulista sem samba no pé que sou, fiquei fascinado com o tamanho do local, que só parece pequeno diante dos carros alegóricos gigantes usados no carnaval deste ano e que ainda se espremem no local, pois só serão desmontados a partir de junho. Mas por que eu fui até lá? Resposta simples e direta: para me reunir com a diretoria da tradicionalíssima Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira e negociar um evento com o escritor cristão Max Lucado na quadra da escola. É isso mesmo – um pastor evangélico americano vai falar na quadra de uma escola de samba!

Quando surgiu essa possibilidade, parecia coisa de maluco. Simplesmente, começamos a brincar com a ideia de levar um autor evangélico com mais de 65 milhões de livros vendidos para aquele templo do samba. Quando paramos de rir, ficou a pergunta no ar: e por que não? Pensamos um pouco sobre o assunto, consultamos Lucado e ele topou. Organizamos a agenda e o único dia que encaixava era o 26 de julho – um domingo! Mais uma vez: e por que não?

Depois de um contato prévio com a diretoria da Mangueira, lá estava eu conhecendo o recém-eleito presidente da escola, Ivo Meirelles, e o diretor de Eventos, Roberto Benevides. Eles foram presenteados com livros com capas nas cores verde e rosa, em uma explícita homenagem à octogenária Mangueira, que se eternizou no samba ostentando aquelas duas cores em seu estandarte.


Os sambistas, é claro, adoraram a homenagem e se interessaram pelo evento inusitado. A reunião fluiu, acertamos vários detalhes, e tudo indica que, quando esta edição de CRISTIANISMO HOJE estiver nas mãos dos leitores, tudo já estará mais que confirmado. Ou seja, no último domingo de julho, Max Lucado não estará em nenhum templo cristão, mas na quadra da Mangueira – e tenho certeza de que Deus e sua igreja também estarão presentes por lá. Na programação, além da palavra do famoso pastor evangélico, que trará uma mensagem de esperança e fé aos sambistas, visitantes e crentes presentes, haverá uma programação musical. A bateria da Mangueira e um coral evangélico farão parte do espetáculo, tocando juntos hinos cristãos. É, os bumbos, repiniques, cuícas e tamborins da Estação Primeira serão usados para glorificar o nome do Senhor. E por que não?

A ocasião festiva leva também a algumas reflexões. Primeiro, porque mensagem cristã de esperança e redenção será levada à quadra da Mangueira, lá dentro da comunidade. Segundo, porque cristãos das mais diversas denominações terão, muitos pela primeira vez, contato com o samba, uma tradição tão brasileira e tão bela. Os mais críticos poderão lembrar do lado promíscuo e pagão do carnaval, que muitos consideram uma folia profana, mas a verdade é que o samba é muito mais do que isso. Ele é o ritmo mais brasileiro, o que mais exalta nossa alma de raízes negra, branca e indígena. O fato de muitas vezes aparecer atrelado a mulheres seminuas e bailes libertinos não quer dizer que esse rico gênero musical se limite apenas a isso. Há sambas com letras maravilhosas e, assim como qualquer outro ritmo, não existe nada contraditório em sua associação com o cristianismo. Na verdade, assim como a Igreja é muito mais do que seus erros do presente e do passado, o samba é muito maior do que alguns aspectos do carnaval que essa Igreja condena.

O samba é uma grande festa. O cristianismo, também. Que tal, então, festejarmos todos juntos e proclamar nossa bela tradição musical e também a mensagem redentora do Evangelho? É uma ocasião única para um grande testemunho de fé, quando os crentes em Jesus mostrarão aos seus irmãos do samba como Deus os ama. E olha, é provável que muitos evangélicos até arrisquem uns passinhos – afinal, quem não gosta de samba, bom cristão não é. Mais uma vez, a pergunta: e por que não?


Quem sabe um dia desses o pessoal da Mangueira, com direito a bateria, mestre-sala, porta-bandeira, baianas, velha guarda e tudo o mais, aparece para visitar uma de nossas igrejas? E por que não?

Autor: Carlo Carrenho
Fonte: Cristianismo HOje on line

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Teologia Primeira!

Durante a história, a construção das ideias sempre teve pontos de partida; uma espécie de “grau zero do conhecimento”, ponto a partir do qual surgem outras afirmações. Assim, por um tempo a Metafísica era a filosofia primeira. Isto é, as discussões partiam dos pressupostos da Metafísica de modo que o sobrenatural, as questões sobre a origem do mal, etc. eram gestoras das conclusões. Com a secularização da Filosofia, a Metafísica deixou de ser a filosofia primeira e cedeu seu lugar ao racionalismo, ao existencialismo e a outros campos da própria Filosofia. Dessa forma, quando se fala que a Metafísica deixou de ser a filosofia primeira, pode-se estar afirmando que Deus deixou de ser a fonte de verdade.

 No Cristianismo, tenho notado que a teologia primeira tem sido a Soteriologia, isto é, a doutrina da salvação, como se tivéssemos nascidos para ser salvos, o que equivaleria a dizer que para sermos salvos teríamos de cair em pecado, tornando Deus culpado por isso, uma grave contradição teológica.

 Afirmo isso com base na percepção de que muita coisa na vida comum da igreja gira em torno da salvação. A hinódia, o foco do trabalho na igreja, os sermões (culto noturno como evangelístico), as ênfases para o trabalho do crente, a seleção dos dons que mais são valorizados e reconhecidos, frases tais como “se uma igreja não for missionária nada sobra...”, “o sangue do pecador será requerido do crente que não evangelizar...”, “se você não conquistar pelo menos uma alma para Cristo não pode dizer que é crente...”. Eu já cheguei a ouvir que a missão da Escola Bíblica Dominical é evangelizar, e eu pensei que a missão de uma escola era ensinar!?!

 Por favor, não pense que estou falando contra evangelização e missões, particularmente acho que o que fazemos nesse campo ainda é muito pouco e, muitas vezes, um pouco empobrecido por um trabalho meramente conceitual baseado apenas numa lista de passos que chamamos de “Plano da Salvação”.

O que estou falando é que o ponto de partida da Teologia não pode ser a doutrina da salvação ou qualquer outra, mas o próprio Deus. Quando interpretamos tudo à luz da salvação e não de Deus, poderemos facilmente cair no antropocentrismo, pois, no fundo, partimos do ser humano e sua necessidade de ser salvo e não da razão pela qual Deus nos salvou — para nos levar de voltar a uma vida de total e incondicional dependência dele.

Isso quer dizer que a teologia primeira é a própria Teologia — a doutrina do próprio Deus — de quem vem todo sentido e razão de nossa vida. Tudo o mais no Cristianismo precisa ser entendido a partir dele e somente dele. É recuperar o lugar de Deus, onde sempre deveria estar!

Vou dar um exemplo de que esse reposicionamento acaba provocando um aprofundamento em nossa compreensão do restante do campo teológico cristão. Quando colocamos a Teologia (Deus) como ponto de partida, isso significa que a salvação deverá ser reinterpretada. Em vez de ter apenas uma significação jurídica — perdão e justificação dos pecados —, ou mesmo escatológica — ganhar a garantia do céu—, a salvação tem também uma conexão cosmológica. Nesse sentido, ao sermos salvos, somos reposicionados na ordem das coisas criadas, daí o ensino de Paulo em 2Coríntios 5.17 “se alguém está em Cristo, é nova criação...”. Em outras palavras, eu volto potencialmente ao estado de pré-queda, ainda que continue com a natureza pecaminosa. Daqui poderemos compreender a necessidade do amadurecimento na vivência cristã, do desenvolvimento cristão. Veja que agora o significado da salvação foi amplificado.

Eu poderia agora aplicar tudo isso à eclesiologia, tanto no campo da compreensão doutrinária quanto na prática, revendo, por exemplo, o conceito de missão de igreja, mas vou deixar isso para um outro artigo.
Deus é o ponto de partida e o ponto de chegada de tudo. A ele seja toda honra, glória e poder. Amém!
  • AUTOR
Lourenço Stelio Rega

Lourenço Stelio Rega

É teólogo, educador e escritor. É Bacharel e Mestre em Teologia, pós-graduado em Análise de Sistemas, Licenciando em Filosofia, Mestre em Educação e Doutor em Ciências da Religião. É  Diretor Geral e também professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião e Grego do NT na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. É co-autor do livro Noções do Grego Bíblico: gramátca fundamental (Edições Vida Nova). Visite o site do autor: www.etica.pro.br/jeitinho.

Fonte: http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=127